26.4.16

Dippas para nachos/doritos e outras coisinhas


Fiz um desses molhinhos para lambuzar nachos (doritos) em casa e achei o resultado bastante decente, quem diria? A receita era vegana, mas fiz algumas adaptações.O sabor lembra um pouco o tempero dos doritos na versão com queijo. Se for servir já sobre os nachos junto com outros acompanhamentos (coentro, abacate, milho, feijão, etc., como na receita original), monte o prato momentos antes de servir ou os nachos perderão a crocância. Medi a quantidade mais ou menos a olho, pois não queria fazer a receita inteira.



Queso caseiro (dippas)


1 x de castanhas-de-caju cruas (usei torradas) 
1 x de leite de soja (sem aditivos/aromatizantes, acho que também funciona com leite)
220g de cream cheese
1 tomate pequeno picado (cerca de 1/2 x)
sal a gosto
1/2 c chá de páprica picante
1/2 c chá de cominho em pó 


Bata todos os ingredientes no liquidificador ou no processador até que a mistura fique homogênea e cremosa.


***

Abaixo, algumas de minhas últimas aventuras culinárias e outras coisinhas:

Fiz meu primeiro bolo prestígio seguindo a receita da Marly, ficou ótimo! Só não tive coragem de fazer as três camadas, separei um pouco da massa para o bolo não ficar tão alto e fiz uma versão no formato de cupcake. Ainda bem, pois o corte do bolo maior saiu mais diagonal do que horizontal, imaginem se tivesse que cortar o bolo em três... Não ficou bonito como os bolos da Marly, mas garanto que todos aqueles que comeram gostaram! (Também não reparem no interior da geladeira!)


Gengibre da horta. Separei um pouco para mim e deixei o resto numa caixa na frente do portão com um plaquinha para quem quisesse. Um homem que está fazendo reformas na casa da frente tocou a campainha e perguntou se podia levar, claro!


 Torta de couve-flor, fica entre um recheio de quiche e uma frittata. Receita daqui.


E agora que tenho dill/endro crescendo a todo vapor, faço gravlax quando me dá vontade. É salgadinho e fica ótimo com um molhinho de iogurte e pepino. Eu me baseio mais ou menos nesta receita, mas é só procurar na internet para encontrar uma que se adeque ao seu paladar.

E continuo recolhendo cascalho na rua. Acho essas pedrinhas arredondadas irresistíveis!


3.4.16

April is not the cruellest month

Li If the oceans were ink no mês passado. A autora, Carla Power, é jornalista e passou um ano acompanhando as palestras e tendo aulas sobre o Corão, o livro sagrado do Islã, com uma autoridade da religião, Mohammad Akram Nadwi, um pesquisador e estudioso que nasceu na Índia e mora na Inglaterra. Apesar de sua posição conservadora, Akram deixa claro que Maomé não prega a opressão feminina. Em seus estudos ele realizou o levantamento do nome de várias mulheres que se dedicaram ao estudo do Alcorão no mundo islâmico. 

A autora claramente foca o livro na questão feminina no islamismo e, por meio das explicações de Akram, procura mostrar que o texto sagrado não é tão opressivo em relação às mulheres, ao contrário, as interpretações e leis estabelecidas posteriormente é que teriam restringido seus direitos e liberdade. (Descobri que o profeta nunca disse que uma mulher não deveria conduzir um camelo, inclusive, suas mulheres o seguiam dessa forma, algumas até mesmo expressavam sua opinião e ela era respeitada).

É um livro muito interessante. Como qualquer religião, Akram explica que o fundamento do Islã é a compaixão, a paciência e a modéstia. Mas como qualquer texto, o Corão é aberto a várias interpretações e suas palavras podem ser distorcidas para satisfazer interesses pouco elevados. Quando o secular e o sagrado, as leis e a religião, são uma coisa só, o perigo é grande. Há diversos pontos controversos que Akram tenta elucidar para a autora, ela nem sempre fica satisfeita com as explicações, mas a leitura é ótima para compreender, mesmo que pouco, a perspectiva do islamismo.

As vozes de Marrakech (li em italiano, pois foi a tradução que encontrei), do escritor e ensaísta búlgaro Elias Canetti, é uma espécie de diário com cenas e experiências vividas pelo autor durante uma viagem a Marrakech feita em 1954. Gosto de Canetti, adorei a trilogia autobiográfica (A língua absolvida, O jogo dos olhos, Luz em meu ouvido) na qual ele narra sua infância, sua relação tempestuosa com a mãe, sua juventude e formação literária durante os anos dourados de Viena e seu relacionamento com Veza, uma mulher mais velha que considerava sua musa e com quem se casa. No livro sobre Marrakech, a pobreza e a privação estão sempre muito presentes nas cenas narradas pelo autor, o pouco de lirismo que surge aqui e ali sucumbe rapidamente diante da realidade. 

Getting more of what you want de Margaret Neale e Thomaz Lys é sobre estratégias de negociação, sobre como maximizar ganhos em diversos tipos de interação aliando aspectos psicológicos e econômicos. Apesar de não me considerar uma grande negociadora, gosto desse tipo de assunto. Nossos julgamentos, preconceitos e temperamento afetam nossas decisões e é sempre bom ter consciência disso.

Healthy brain, happy life é uma mistura de livro de bem-estar/autoajuda com neurociência, área estudada pela autora Wendy Suzuki, professora da Universidade de New York. Ela procura mostrar a importância do cérebro para se ter qualidade de vida, mas acho que esse aspecto é explicado de forma superficial, pois o texto acaba priorizando mais sua vida pessoal. É uma leitura que procura ser divertida e informativa ao mesmo tempo sem ser chata, mas fica meio açucarada. (Apesar disso, até gostaria de participar de seu curso sobre como a atividade física afeta a atividade cerebral, ela faz os estudantes realizarem exercícios enquanto gritam palavras de encorajamento e abre uma discussão sobre o tema na segunda parte da aula).

Os dias têm sido quentes, ensolarados. Gosto muito do outono. Decidi tentar remediar as trincas da piscina eu mesma, comprei massa époxi e rejunte e estou aplicando pouco a pouco. Se o vazamento diminuir, podemos chutar o problema para algum momento futuro. Por enquanto, não vi resultado, mas também ainda não terminei. A massa é ruim de aplicar e faço uma ou duas trincas por vez dentro da água.

A horta continua na mesma. Continuo colhendo berinjelas, mas as mudinhas novas continuam desaparecendo misteriosamente. Plantei batata-doce em um dos canteiros porque cansei de semear verduras e perder todas as sementes. Tenho bastante gengibre e os pés de cúrcuma estão vistosos. Colhi algumas mandiocas, elas são muito macias, as mudas foram dadas por meu pai. 

O pão continua caseiro e estou tentando melhorar minha técnica com o levain. Sempre busco dicas no blog da Neide Rigo, acho que estou melhorando, mas ainda não consegui aquele tão desejado pão de casca crocante e miolo cheio de furos. 


Flor de maracujá
Berinjelas e um pepino
primeira colheita de mandioca
alguns passeiam de balão aos domingos
pão caseiro

20.3.16

Entre Parênteses, Bolaño



Terminei de ler Entre Parênteses, uma coletânea de artigos, discursos e uma entrevista concedida por Roberto Bolaño à revista Playboy. Os artigos são curtos e tratam de literatura, afetos e desafetos literários, o Chile, seu país natal; o México, onde foi jovem; e a Catalunha, onde morreu em 2003. 

Gostei muito de Os Detetives Selvagens e 2666, seus dois tijolos de centenas de páginas. Livros ambiciosos, um tanto desequilibrados por isso mesmo, mas leituras fabulosas, estonteantes. Não gostei tanto de Noturno do Chile, tenho a impressão de que Bolaño cresce mesmo quando tem a oportunidade de se estender por várias páginas como nos dois primeiros livros e nos faz mergulhar em um caleidoscópio de imagens e experiências. 

Os artigos são interessantes para conhecer um pouco mais sobre o escritor, mas achei-os um pouco repetitivos. Gostaria que ele tivesse falado mais sobre si, expressado um pouco mais de suas opiniões sobre a literatura, arte e vida. Em suma, fossem mais reflexivos.

Li em italiano. Traduzi um trecho que acho que faz muito sentido:


"Gostaria de recomprar todos os livros de Tolstói e Dostoiévski que li e que não possuo mais em minha biblioteca. E também aqueles de Daudet. E aqueles de Vitor Hugo. Algumas vezes me pergunto o que fiz deles, desses livros, como posso tê-los perdido, onde os perdi. Outras vezes me pergunto porque desejo tê-los se já os li, que é o único modo de conservá-los para sempre. A única resposta possível é que os desejo para meus filhos. Sei que é uma resposta enganosa: cada um deve sair de casa em busca dos livros que estão à sua espera."



17.3.16

Após a chuva

A água subiu na sexta e baixou no domingo. Levou metade da estrada de terra. Alguns corajosos ainda se arriscaram a ir embora mesmo com ela alagada. Algo fora de questão para carros baixos como o nosso. Fizemos compras mais robustas para os próximos dias. Enquanto chover e o rio estiver cheio, nunca se sabe. A água entrou em várias casas. Tenho pena das pessoas que realmente moram aqui e não aparecem só para recreação, pois a perda e o susto são bem maiores. Acredito que a natureza sempre reivindique aquilo que lhe foi tomado e, bem, moramos sobre um antigo brejo na beira de um rio. Meu pai sempre nos aconselhou a escolher casas em lugares mais altos, o que meus irmãos fizeram. Eu casei e vim para cá.

Resta esperar o fim da estação das chuvas. Enquanto isso, persevero com a horta. Descobri que o culpado pelo sumiço das minhas mudas provavelmente seja uma tal de paquinha, um bichinho parecido com um grilho que faz galerias no solo e tem hábitos noturnos. Comecei a usar uma mistura de fumo comprada pronta para pulverizar as plantas, mas ainda não vi efeito. Fiquei em dúvida sobre se deveria refazer a pulverização depois das chuvas, alguém sabe?

Como tenho bastante pimenta malagueta, resolvi preparar uma solução para ver se ela é mais eficiente do que o fumo. Se não resolver, espero que os ataques diminuam depois de abril, quando as verduras ficam mais vistosas e não há tanta umidade no solo (parece que a paquinha gosta de umidade e estamos com muita).



preparando uma solução de pimenta malagueta e álcool para pulverizar as plantas
minhas últimas pimentas jalapeño, consegui só um pé, mas aproveitei bastante, ô pimenta gostosa!
andorinhas
tuins no coqueiro
as orquídeas não floresceram tão bem este ano
canna índica vermelha

12.3.16

Muita água


E assim estamos desde ontem, várias áreas da região foram inundadas pelas cheias dos rios e a nossa foi uma delas. A água começou a subir pela manhã e nos ilhou. Ninguém entra ou sai. Agora é esperar que a água baixe. Felizmente, nossa casa fica um pouco mais alta do que o nível da rua, diferente de várias outras casas vizinhas.

10.3.16

Da horta



Tentar manter uma horta me faz admirar cada vez mais quem produz legumes e verduras orgânicos, porque, nossa, tenho uma dificuldade imensa para conseguir produzir alguns humildes vegetais. Começa já na hora da semeadura, ultimamente, mal as sementes começam a germinar e vão sumindo pouco a pouco sem que eu consiga identificar o culpado. Depois surgem as lagartas que comem as folhas das plantas adultas e os diversos insetos que furam e estragam os vegetais mais tarde. Ao final, consigo salvar um pepino aqui, umas pimentas ali, um pé de alface que ficou mais escondido. Apenas as berinjelas têm me surpreendido com uma boa produção. Ah, e também temos espinafre, plantei três pés, arranquei quando ficaram feios e as sementes germinaram sozinhas, tenho que ficar de olho para que as plantas não tomem conta de tudo. (Segundo o O., só as coisas de que ele não gosta vão para frente, mas a lista dos vegetais que ele come com algum gosto é bem pequena).

Meu pai consegue produzir uns dez abacaxis no quintal todos os anos. São pequenos, mas doces. Enquanto isso, minhas coroas vivem do mesmo tamanho, acho que ele usa muito NPK, eu prefiro perseverar com o composto das minhocas. 

Uma das mudas de zingiber morreu afogada pelas chuvas. A grama cresce vertiginosamente e apareceu a primeira margarida da leva de sementes plantadas no ano passado. Flores também parecem sofrer os efeitos dos modismo e há épocas em que algumas espécies somem dos jardins, não é mesmo? Via muitas margaridas quando era criança, assim como gerânios, mas eles deram uma sumida.






6.3.16

Palavras de Bolaño

A literatura, como diria uma cantora andalusa, é um perigo. E agora que retorno, finalmente, ao número 11, o número daqueles que jogam no ataque, e que mencionei o perigo, posso recordar aquela página de Dom Quixote na qual se discute os méritos da milícia e da poesia, e na qual imagino que no fundo se fale do grau de perigo, ou do grau de virtude, exigido pela natureza dos dois ofícios. E Cervantes, que foi soldado, faz a milícia, o ofício de soldado, vencer o honorável ofício de poeta, e se lemos aquelas páginas com cuidado (coisa que agora, enquanto escrevo este discurso, não faço, mesmo que da mesa onde estou sentado, veja muitíssimo bem as minhas duas edições de Dom Quixote) sentimos um forte aroma de melancolia, porque Cervantes faz sua juventude, o fantasma de sua juventude perdida, vencer a realidade do exercício da prosa e da poesia, até então tão inclemente para com ele. E isso me vem à mente porque, em grande medida, tudo o que escrevi é uma carta de amor e adeus à minha geração, à nossa geração que nasceu nos anos cinquenta e que em determinado momento escolheu o exercício da milícia, em nosso caso, seria mais correto dizer da militância, e confiou o pouco que possuía, que era muito, porque era a nossa juventude, a uma causa que acreditava ser a mais generosa do mundo e que, em certo sentido, o era, sem que, em realidade, o fosse. Inútil dizer que combatemos exaustivamente, mas que tínhamos chefes corruptos, líderes covardes, aparatos de propaganda que eram piores do que leprosários, e que lutávamos em nome de partidos que, se tivessem vencido, teriam nos enviado imediatamente aos campos de trabalho forçado, lutávamos e dispúnhamos toda a nossa generosidade a serviço de um ideal morto mais de cinquenta anos antes, e alguns de nós o sabíamos, não podíamos deixar de sabê-lo se tivéssemos lido Trótski ou se fôssemos trotskistas, no entanto, lutávamos do mesmo jeito, porque éramos estúpidos e generosos, como o são os jovens, que dão tudo e não pedem nada em troca, e agora que não resta mais nada desses jovens, aqueles que não morreram na Bolívia morreram na Argentina ou no Peru, e aqueles que sobreviveram foram morrer no Chile ou no México, e aqueles que não foram assassinados ali, foram assassinados mais tarde na Nicarágua, Colômbia ou El Salvador. Toda a América Latina está semeada de ossos desses jovens esquecidos. E é essa a mola que impele Cervantes a escolher a milícia em detrimento da poesia. Seus companheiros também estavam mortos. Ou estavam velhos e abandonados, sós e na miséria. Escolher significava escolher a juventude, escolher os derrotados, escolher aqueles que não tinham mais nada. E é isso o que faz Cervantes, escolhe a juventude. 

(Roberto Bolaño, Discurso de Caracas, traduzido do italiano por mim)

3.3.16

Livros de fevereiro


Falei cedo sobre a chuva no post anterior, não é mesmo? Voltou a chover muito nas últimas semanas. O solo está encharcado e faz chop chop quando caminho sobre a grama. Não dá para passar muito tempo do lado de fora cuidando do jardim então leio.

Li alguns livros sobre zen budismo, entre eles: Zen and Japanese Culture de Daisetsu Teitarô Suzuki e Zen Experience de Thomas Hoover. Suzuki tem obras bastante difundidas no Ocidente tratando do budismo. É interessante ver a religião/filosofia da perspectiva de um japonês, mas achei o livro do Hoover mais instrutivo. Ele procura traçar a história do zen budismo desde a China até o Japão. Como qualquer religião/instituição, o zen é constituído de várias idiossincrasias muito humanas. Sua história é feita de variações, cisões e disputas entre mestres e discípulos que pensam de formas diferentes. Algumas escolas se beneficiam do apoio dos poderosos e há aquelas que se afastam do mundo. Alguns mestres acreditam na meditação, outros preferem métodos menos ortodoxos como gritos e tapas como meios para atingir a iluminação.

Em Good Thinking, Guy P. Harrison escreve sobre a necessidade e os benefícios de cultivarmos uma espécie de ceticismo científico em nossas vidas, isso evitaria que tomássemos decisões ou abraçássemos causas e opiniões baseados em falácias ou ignorância. No fundo, o que ele prega é bom senso, mas li alguns comentários críticos de pessoas religiosas, por exemplo, que não gostaram do que ele escreveu.

Apesar de minha casa estar longe (muito longe) de ser um exemplo de organização e minimalismo, adoro livros sobre o assunto. Li The life-changing magic of tidying up de Marie Kondo que fez um tremendo sucesso no ano passado e terminei Simple Matters de Erin Boyle esta semana. Erin tem um blog (que conheci depois do livro), Reading my tea leaves, no qual dá dicas sobre como podemos ter uma vida mais simples, clean e autêntica. O livro também é sobre isso, sobre atitudes que enriqueceriam nossas vidas como usar produtos naturais, dar valor à qualidade e não à quantidade, consumir menos, aliar a sustentabilidade à beleza. Tanto Marie quanto Erin dizem que o segredo para ter uma casa mais clean é comprar e conservar apenas as roupas e objetos que amamos e nos fazem felizes. (Oh boy! Me passem alguns sacos de lixo...).

No campo da ficção, li Atemschaukel (traduzido como "Tudo o que tenho levo comigo", título que não achei muito bom, "The Hunger Angel", título da tradução inglesa, é bem melhor), da Herta Muller. Ele é narrado por Leo, um jovem da minoria alemã da Romênia que é deportado para a União Soviética onde passa cinco anos em campos de trabalho forçado. O tema é triste e duro, mas a escrita é muito poética. Gosto disso nos textos da Herta Muller, da concisão e do efeito das imagens que ela evoca. Li em alemão e, apesar de ter muitas dificuldades com essa língua, não era alheia à beleza de sua escrita.

Comprei e li dois livros do chileno Alejandro Zambra publicados pela Cosac Naify (RIP). Confesso que fazia anos que não comprava livros em português (mesmo uma tradução). Foi estranho ler um autor que li primeiro na língua original traduzido para o português, o pior é que cada um deles foi traduzido por uma pessoa diferente. Acho difícil manter algo parecido com um "estilo" dessa forma. Gostei muito do Zambra em espanhol, apesar de ter lido apenas Bonsai e No Leer que comprei no Chile. Calhou de uma leitora do blog fazer a recomendação do autor pouco antes de uma viagem a Santiago e fui procurá-lo nas livrarias próximas do apartamento onde ficamos. Livros no Chile são caros e não tive coragem de comprar mais nada. Até reclamei disso com o vendedor de uma livraria em Providencia e ele concordou comigo. Meus Documentos é uma coletânea de contos, gostei bastante de alguns, achei outros fracos, mas, bem, contos não são meu forte. Quase todos soam meio autobiográficos. Formas de Voltar para Casa também tem um quê disso, de fato, todos os textos do Zambra têm muito dele, de acontecimentos pessoais, do Chile e de Santiago. O romance é curto, como todos os seus textos, e trata do período da ditadura de Pinochet (1973-1990) e de como os relacionamentos e as vidas das pessoas foram afetados por ela.


19.2.16

Quem ri por último

Calor, hein? As chuvas andam menos imprevisíveis na minha região, espero que continuem assim.

Não tenho cozinhado muito. Grelho alguma carne, há arroz e vegetais, nada muito trabalhoso ou criativo. Continuo evitando doces, mesmo que sempre me dê vontade de beliscar algo junto com o café depois do almoço, mas tento me manter firme. A gordura se torna mais persistente quando nos aproximamos dos "enta".

Estou finalizando a limpeza de final/início de ano. Lavar telas e janelas é a próxima tarefa. Encaro os cuidados com a casa como minha "academia", assim economizo duplamente, não pago para me exercitar e não pago para ter a casa limpa.

Uma coisa boa de ter terminado o mestrado é que a vontade de ler voltou com tudo. Tenho lido bastante e com prazer. (Depois comento algumas leituras). 

Os últimos filmes que vi foram: Star Wars (até gostei, pois me fez lembrar dos primeiros que assisti na infância), O Marciano (melhor do que esperava) e Relatos Selvagens (Ótimo! Os argentinos sabem fazer filmes). E só. Leio mais do que assisto a filmes. Fora isso, vejo documentários que gravo da NHK e TV5, também acompanho algumas séries com o O., atualmente: New Girl, Life in Pieces e Grimm (esperando pelo retorno de Broad City e Game of Thrones).

Plantei mais algumas mudas de flores, cannas de cores diferentes, zingiber e moreas. Se alguém dissesse que eu me interessaria pela jardinagem e assumiria os cuidados com o nosso jardim dez anos atrás, eu teria dado uma risada.

continuo alimentando os pássaros pela manhã
glória da manhã

10.2.16

Sobre a cerimônia do chá e o zen

Trechos do livro Zen and Japanese Culture de D.T. Suzuki. Tradução minha:


"Nestes tempos modernos, como muitos de nós estão situados em relação ao mestre de chá? Não faz sentido falar em um entretenimento tranquilo. Vamos obter o pão primeiro e menos horas de trabalho." Sim, é verdade que nós temos que comer o pão obtido com o suor de nosso rosto e trabalhar algumas horas como escravos de máquinas. Nossos impulsos criativos foram miseravelmente recalcados. Entretanto, acredito que não seja por esse motivo que nós, os modernos, perdemos nosso gosto pela capacidade de relaxar, de encontrar tempo em meio a nossas preocupações para aproveitar a vida sem ser correndo atrás de estímulos apenas pela diversão. A pergunta é: Como terminamos por nos entregar a uma vida na qual os problemas são suprimidos apenas temporariamente? Por que não refletimos mais sobre a vida de modo mais profundo, mais sério, para ter uma ideia de seu significado mais íntimo? Quando essa pergunta for respondida, se necessário, negaremos todo o mecanismo da vida moderna e começaremos de novo. Espero que nosso destino não seja nossa escravidão contínua às necessidades e bem-estar materiais.

 "De fato, é um grande erro ostentar wabi enquanto, internamente, nada está de acordo com esse conceito. As pessoas constroem uma sala de chá com todos os requisitos para que ela aparente wabi; muito ouro e prata é desperdiçado no trabalho; objetos raros de arte são comprados com o dinheiro  adquirido por meio da venda de suas terras - tudo isso para exibirem às visitas. Elas acreditam que a essência de uma vida de wabi encontra-se ali. Mas longe disso. Wabi significa insuficiência de coisas, falta de meios para satisfazer todos os desejos que se possa ter, geralmente, uma vida de pobreza e tristeza. Deter-se em desespero no curso da vida devido à incapacidade de prosseguir - isso é wabi. Mas não nos afligimos com isso. Aprendemos a ser autossuficientes com a insuficiência das coisas. Não procuramos coisas além de nossos meios. Deixamos de ter consciência do fato de que estamos em situações difíceis. Se, entretanto, persistirmos com a ideia da pobreza, insuficiência, ou miséria de nossa condição, não seremos mais pessoas de wabi, mas pessoas afetadas pela miséria. Aqueles que sabem o que é wabi, estão livres da ganância, violência, raiva, indolência, desconforto e tolice. Wabi corresponde ao Pāramitā da moralidade como ela é observada pelos budistas."

Quando o wabi é explicado da forma acima, os leitores podem achar que ele é mais ou menos uma qualidade negativa, e que ele é desfrutado pelas pessoas que fracassaram na vida. Talvez isso seja verdade em certo sentido. Mas quantos de nós são tão saudáveis a ponto de não precisar de remédio ou de um fortificante de um tipo ou de outro em algum momento da vida? E todos estamos destinados a morrer. A psicologia moderna fornece muitos casos de homens de negócios ativos, fisica e mentalmente, que repentinamente entram em declínio depois que se aposentam. Por quê? Porque eles não aprenderam a conservar uma reserva de sua energia; ou seja, eles nunca pensaram em um plano de recolhimento enquanto estavam trabalhando. O guerreiro japonês, naqueles dias de batalhas e agitação do passado, quando estava mais ardorosamente envolvido nas atividades da guerra, percebia que não poderia permanecer  com os nervos à flor da pele, sempre em vigília, e que precisava de alguma forma de escapar em algum momento e lugar. O chá deve ter lhe dado exatamente isso. Ele se recolhia durante algum tempo em um canto tranquilo de seu inconsciente, simbolizado pela sala de chá de menos de um metro quadrado. E, quando ele a deixava, sentia não só a mente e o corpo revigorados, mas provavelmente sua memória era renovada com coisas de valor mais permanente do que a mera luta.